domingo, 10 de dezembro de 2006

(texto) DOR NO CORAÇÃO, EMOÇÕES, TRANQUILIDADE E CONSCIÊNCIA TRANQÜILA

Quando entrei na Universidade Metodista de Piracicaba, em fevereiro de 1990, duas coisas boas - além do ínédito emprego de professor universitário - trouxeram-me um entusiasmo. Primeiro, foi rever e trabalhar junto com uma grande amiga de tempos de graduação, a professora Marta Maia. Segundo, foi poder trabalhar em uma instituição que tinha um projeto educacional progressista e que ia na contra-corrente do neoliberalismo que se implantava no país com a eleição da triste figura de Collor. Naquela época, eu tinha acumulado uma experiência em assessoria de comunicação sindical e participado de diversas experiências de jornalismo alternativo. Trazer esta busca pelo novo e a preocupação com a transformação social para o campo do ensino era um desafio que me alegrava.
E foi junto a pessoas maravilhosas que trabalharam comigo, como a já citada Marta Maia, Marithê, Ivonésio, Fefeu, Eneus, Maria Inês, Rosana, Angela, Luciene, Dema, Marcos Cassin, Miriam, Edvaldo, José Lima, Silvio Gallo, Renato, Serginho, Telma, Débora, Dirce, Maria Helena, Maria Santa, Rosa, Tito Lívio e tantos alunos e alunas que marcaram a minha trajetória na Unimep que não citarei nomes para não cometer nenhuma injustiça, que construímos juntos não apenas um curso mas uma possibilidade de transformar o sonho de um jornalismo sério, ético, socialmente responsável e cidadão em realidade. Quando da prisão de Andinho, em Campinas, acusado da morte do prefeito Toninho, do PT, um repórter de uma rádio do interior, ex-aluno da Unimep, se diferenciou de todas as demais coberturas feitas na grande imprensa ao se preocupar em levantar o passado difícil da infância de Andinho - enquanto que os demais meios de comunicação se limitavam em registrar unica e exclusivamente a ação da polícia. Isto mostrou que um outro jornalismo é possível, e necessário.
Construímos projetos maravilhosos de comunicação popular com trabalhadores sem terra, jornais laboratório diferenciados, projetos de pesquisa com reflexões críticas sobre a comunicação e caminhávamos a passos largos para transformar a instituição em um centro de excelência com um paradigma inovador na área de comunicação. Sentia que havia um compromisso entre estas pessoas para que isto fosse realizado. Praticamente transferi 80% da minha vida de São Paulo para Piracicaba em função disto e aceitei dirigir o curso de jornalismo a partir de 2002 como parte deste projeto coletivo. Este sacrifício não foi uma atitude messiânica - foi um sentido dado a minha vida profissional tanto pela proposta como pelo caráter das pessoas que o encamparam.
Dediquei dezesseis anos da minha vida a este projeto. Por mais que as dificuldades aumentassem, a convivência e o compromisso e, por eles, as brigas cotidianas com colegas e alunos eram o combústível que atenuava o cansaço do estafante trabalho de educar. E a minha sinceridade e transparência ao falar o que penso e defendo foi absorvida - não digo sem dor - por todos estes que eram mais que colegas, eram cúmplices de um projeto.
Tudo isto foi golpeado pela atitude insana de uma pessoa que, em troca da manutenção do poder, desrespeita o que fala. Aprendi na periferia a máxima que "minha assinatura é o fio do meu bigode". Em entrevista dada logo após sua posse, o novo reitor da Unimep dizia que não haveria demissões em massa. Houve. Disse que respeitaria a cultura organizacional da instituição. Desrespeitou-a com o seu gesto autoritário. Disse que não aplicaria os mesmos métodos que aplicou na Umesp. Fez o mesmo. Vários do que ficaram com ele encamparam a prática da covardia, do puxa-saquismo e da dissimulação. Escondem-se atrás da frieza das assinaturas e dos carimbos. Os fios dos seus bigodes são falsos.
Saio da Unimep com dor no coração, emocionado mas com a cabeça erguida e com a consciência tranqüila. Dor no coração pela perda da convivência com as pessoas que sempre amei e sentirei saudades, inclusive das brigas. Emocionado pelos inúmeros gestos de solidariedade que recebi de alunos e colegas, inclusive de alguns que escaparam deste corte. Cabeça erguida porque nunca me rebaixei e fui venal para manter posições. E com a consciência tranqüila pois todos os indicadores mostram que fizemos um bom trabalho nestes anos todos.
Aproveito para dar um forte abraço a todos os alunos de Jornalismo e Rádio e TV com os quais compartilhamos bons e maus momentos e que estarei sempre a disposição, na medida do possível, para continuarmos nossa conversa.
Texto extraído do blog "Jornalismo Ético e Cidadão" do prof. Dennis, que também foi demitido.

Um comentário:

heloisakimura disse...

Sinto imensamente pela perspectiva de ter frustrada a minha expectativa de poder desenvolver um trabalhar com essa grande figura que é o professor Dennis. Porém, se tivermos que alcançar nossos objetivos através de muita luta, que esse engajamento também venha para nos beneficiar.